cotidiano

Final do primeiro semestre

No começo do ano passado resolvi me inscrever para fazer o Enem. Queria pensar na possibilidade de estudar algumas coisas que eu já gostava bastante e trilhar uma nova perspectiva para os anos depois dos 40… Um plano B para o meu já plano B. Em janeiro deste ano saíram as notas e pela primeira vez na vida, eu tinha pontuação para fazer o que eu quisesse, dos cursos que eu já tinha afinidade e pensava em entrar. Escolhi estudar artes mais por conta do horário (tardes) do que simplesmente pelo curso. Não estava disposta a fazer outra graduação de noite e consegui organizar os horários dos quiosques para estar na universidade.

As aulas começaram em julho e foi uma luta organizar a rotina nas primeiras semanas. A universidade é grande, sem sinalização ou mapa de onde ficam as didáticas (prédios onde acontecem as aulas). Perdida, caminhava bastante dando voltas homéricas, por ainda não entender que o ‘Moura’ fica ao lado do estacionamento onde meu carro estava, por exemplo. Me sentia cansada, emagreci – até entrar na nova rotina e me readaptar a estar na sala de aula, fazer trabalhos, ler textos no xerox, discutir pontos interessantes com o professor. Fazer novos amigos, trocar ideias, se interessar por coisas completamente novas, produzir. Quanta coisa gostosa neste tempo todo!

Chegamos a um final de semestre estremecidos com a PEC e enlouquecidos com os trabalhos finais. A turma foi afinando, perdendo um aqui, outro ali, para restar um grupo menor. As relações e grupos se consolidaram, as amizades ganharam força. Consegui finalizar o semestre com bons trabalhos e participação em quase tudo (só um professor ainda dará uma prova semana que vem).

Descobri que algumas coisas que eu amo e já investigo dão em linhas de pesquisa interessantíssimas. Estudo coisas que tenho prazer em ler, pesquisar. Visualizei um mundo novo e possível.

Pauta Nacional

Os terríveis hábitos escancarados em #euempregadadomestica

Semana passada estourou a página e a hastag #euempregadadomestica, criada pela professora de história Joyce Fernandes, ex-empregada doméstica. Ela fez alguns depoimentos sobre sua experiência na profissão e passou a receber outros, de gente de todo Brasil. Em menos de 3 dias a página já tinha 50 mil curtidas (hoje, já são mais de 100 mil) e a autora – que também é rapper e tem o nome artístico de Preta Rara – passou a dar entrevistas para veículos como BBC, TV Cultura, G1, Catraca Livre, entre outros.

primeiro post de Joyce com a hashtag #euempregadadomestica
Primeiro post de Joyce com a hashtag #euempregadadomestica

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Minha avó materna foi, durante muitos anos, empregada doméstica de famílias de classe média alta na zona sul, em São Paulo. Eu pessoalmente não tenho lembranças dela fazendo relatos, só que ia trabalhar às 4h30 da manhã todos os dias e que voltava pra casa tarde da noite. Levou anos para se aposentar porque o tempo de serviço cumprido como doméstica foi informal – só conseguiu descanso depois de cumprir o tempo de contribuição sendo serviços gerais em uma empresa, ‘limpando privada entupida dos outros’, como falava, às vezes.

Quando mudamos de São Paulo para o Paraná nós tivemos empregadas em casa até os meus 12 anos, para ajudarem minha mãe em manter a ordem da casa com três crianças. Às vezes, fico pensando, tentando lembrar se tínhamos um destes comportamentos escrotos que a gente vê nos depoimentos ou no excelente filme ‘Que Horas Ela Volta?’. O prato na porta do quarto pra empregada recolher no dia seguinte (eu não fazia isso, mas, será que fazia outra coisa?). O comportamento esnobe e elitista, que a vida nos prova, por A+B, que é horrível, horrível.

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É quase impossível não lembrar de tanta coisa que a gente já ouviu em todos estes anos sobre empregadas domésticas. Uma colega próxima me emudecia quando reclamava que a empregada ‘comia demais’ em sua casa. O que dizer quando alguém próximo diz que ‘é um absurdo uma empregada receba os benefícios trabalhistas como os outros trabalhadores’? O textão problematizador do facebook fica em suspenso, pego de surpresa, já que a gente não quer destruir amizades assim, tão abruptamente. (no final das contas, a gente se afasta, porque não consegue se emudecer tanto)

Esta herança escravocrata da classe média brasileira ainda levará anos para acabar. Esta percepção absurda de que se tem direito a ser servido, sempre. #euempregadadomestica escancara a ideia de que as pessoas que fazem serviços domésticos são de menor valor, de menor importância, ou ainda pior, que são sujos e não são dignos dos nossos pratos, talheres ou copos.

incrivelmente, esta foi a 'resposta' dada pela filha da patroa de Joyce O.O
incrivelmente, esta foi a ‘resposta’ dada pela filha da patroa de Joyce O.O

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Muitos depoimentos enviados à página são de pessoas que experenciaram a vida de doméstica muito de perto. Gente que, como eu, tinha um parente próximo (mãe, tias e avós empregadas domésticas) vivendo os preconceitos e humilhações no dia a dia. Muitas pessoas relatam lembranças que viveram na infância, quando levadas ao trabalho da mãe. Privada de estar fora do quartinho dos fundos (voltamos ao filme, perfeito em relatar esta situação!), ter pratos e talheres à parte, ser proibida de se alimentar da mesma comida que os patrões (“este sorvete é o de Fabinho!”, impossível não lembrar). Nossa atual diarista passou algumas semanas sem comer à mesa conosco, de vergonha, por não fazer a refeição com os patrões nas outras casas que trabalha. Foi triste saber disso assim, em 2016, que a empregada não divide a mesa…

É por estas e outras que a voz dada com a hastag #euempregadadomestica é tão importante, tão significativa, tão chocante e tão conflituosa (os comentários na matéria do G1 foram desativados pelo próprio site depois de tantas ofensas racistas). Embora ainda leve um tempo para que a situação se refaça, são iniciativas como esta que apontam quão absurdo é esta ideia de que ‘a pessoa é paga para te servir’, ao invés de pensar que é alguém facilitando sua vida, fazendo um serviço que é de obrigação sua (por estas e outras que em países desenvolvidos, ter um empregado doméstico é um luxo que só quem é realmente rico pode pagar – porque esta relação de desigualdade deve acabar).

Por mais valorização e empatia com aqueles que cuidam dos nossos. Que dobram sua cueca, que deixam sua bagunça reorganizada, que limpam a sujeira que nós fazemos. Por um futuro sem o comportamento do século retrasado.