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conversas com meu avô

Foi uma visita rápida, coisa de neta desnaturada mesmo. Cheguei no meio da tarde e pudemos conversar por 40 minutos. Quando olhei pela janela, vi meu avô sentado na cadeira. “Bença, vô!”, anuncio que estou ali. “Deus a abençoe, minha filha”, depois de me reconhecer. Não consigo disfarçar minha cara de surpresa ao vê-lo tão abatido, tão mais magro, com a pele fina e com os olhos que claramente não enxergam muita coisa. Ousei perguntar como ele estava, para escutar o terrível “esperando a hora de deus”. Me senti triste. Alguém com quase 89 anos não devia se sentir assim, um peso na terra, sem alegrias e sem vontades.

Não sei o seu avô, mas para eu conversar com o meu, preciso puxar papo. Muitos papos. Perguntar do Palmeiras, comentar o clima, escutá-lo reclamar dos barulhos diversos da vizinhança, da saúde que está cada dia pior. Me esforçar para ouvir seu jeito peculiar de falar, contornar as reclamações, sorrir sempre que não entendo alguma coisa. Desta vez, quis matar algumas das minhas curiosidades: perguntei como é que ele tinha vindo parar ali, em São Paulo, tão longe de casa e da família que sempre sentiu tanta falta. Queria escutar coisas novas, daquelas que nunca tinha escutado, pra ir preenchendo o repertório da história familiar com mais causos. Quanto anos o senhor tinha? E do que trabalhava no nordeste quando resolveu deixar a terra pra trás pra chegar até aqui? Seu rosto foi ganhando brilho, seus olhos um tanto mais atentos e as palavras fluíam, fluíam, fluíam…

Meu vô tem ficado nervoso porque não lembra se tomou ou não um dos dez remédios diários que precisa tomar. Se frustra por precisar de tantos, por não conseguir lembrar das coisas simples do dia a dia, dos problemas de saúde que só se agravam, sem melhorar. Quando ele contava da sua saga de vida, de sair de um emprego de marreteiro de trilhos de trem a ser operário na cidade grande, passou pelos nomes das ruas dos primeiros empregos, das primeiras pensões em que morou, dos banhos de bacia sem chuveiro, dos colegas que foi conhecendo ao longo do caminho. Lembrava nome e sobrenome das pessoas, endereços completos com detalhes da vizinhança. Contou que conseguiu um emprego porque jogava futebol (o time da empresa queria uma estrela!) e do acidente nas mãos, que tirou sua chance de fazer um teste na Portuguesa. (meu avô perdeu 4 dedos em acidentes de trabalho, em diferentes ocasiões) Ele era conhecido por seu futebol e era o ‘baianinho da vila tal’ – já que para qualquer pessoa do sul, quem é do nordeste é baiano (como para quem é do nordeste, quem é do sul é gaúcho) rs.

Fazia muito tempo que eu não o via entusiasmado em alguma conversa. Pensei sozinha que tinha descoberto a fórmula de ver alegria em seu olhar: colocar sua cachola para lembrar do passado, das coisas que fez, do homem que já foi, das pessoas que passaram por sua vida, das aventuras que viveu quando decidiu mudar para o outro lado do país.

A história da minha família continua com muitas lacunas em branco. Minha vó se foi e deixou páginas e páginas sem que eu pudesse preencher. Resta-me ele, que há 20 anos espera deus o levar. “Vaso ruim não quebra não, Elísio”, suspira deus em sua sabedoria. Ainda me faltam muitas histórias para escutar.

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