Meu olhar Minha vida

percepção do ser

Dia desses, numa reunião deliciosa de mulheres inspiradoras, perguntamos a uma socióloga presente como é que uma mulher pode se tornar feminista ou empoderada, sem ter um embasamento de conhecimento técnico/acadêmico no assunto. Ela nos explicou que sim, pessoas sem nenhuma instrução mais formal podem ser feministas, simplesmente por questionar e resistir, com atitudes e discurso. É aquele momento em que você não aceita um papel imposto pela sociedade e questiona as regras do jogo. Por que o tratamento dele é diferente do meu?

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Minha mãe conta que, quando engravidou de mim, sonhava que eu fosse mulher. “Pra não ter um irmão mais velho, homem, que mande nela”, pensava, traumatizada da própria vivência. Filha de migrantes alagoanos em São Paulo, minha mãe viveu na pele a cultura machista em que a mulher existe para servir o homem. Precisava buscar água, com baldes na cabeça, num lugar looooonge, com uma ladeira digna de aventureiros que escalam o Morro do Pai Inácio (galeria). Para comida, lavar roupas? Também, além de buscar água para que os irmãos tomassem banho. Era obrigação das mulheres fazerem o esforço de trazer água pra casa, fazendo quantas ‘viagens’ fosse preciso. Os irmãos não faziam o mesmo para as irmãs mulheres. Assim.

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Apesar deste desejo de que o mundo fosse diferente, a educação dada a mim e ao meu irmão não foi a mesma. Embora os dois fossem à escola, estivéssmos envolvidos com esportes, etc, só eu tinha obrigações com a limpeza e a organização da casa. A mim cabia arrumar o meu quarto, aos sábados ajudá-la nas tarefas mais chatinhas da casa (tirar pó, limpar o banheiro) e quando tive um pouco mais de idade, passar roupa. Mulher tinha que saber arrumar a casa, ariar panelas, passar camisas. E meu irmão, nada.

Quando visitávamos a família, só por não executar os papéis ‘de mulher’ com agilidade, eu era ‘preguiçosa‘. Se não ia lavar a louça do almoço assim que saísse da mesa, ‘ai, a Denise é preguiçosa. Vai dar trabalho!’, etc, etc. Eu queria ficar vendo TV como todo mundo – acho um sacoooo como as mulheres sempre se comportam como arrumadeiras ninja, levantam, tiram os pratos, organizam a pia, tiram a comida das panelas, em segundos, enquanto poderíamos estar tomando um café, sossegados, na sala. (por anos, fiz este papel por imposição social – afinal de contas, eu tinha que provar que não era preguiçosa. Hoje em dia, vou pra sala ‘com os homens’.)

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Sempre brigando muito, reclamava das ‘não obrigações’ do meu irmão. Tinha a responsabilidade de deixar a cozinha arrumada, por completo, antes de ir para o ginásio, quando treinava vôlei. À noite, depois da janta, também. Só consegui mudar a situação quando minha irmã mais nova começou a crescer e eram duas brigando, juntas, contra minha mãe. Até que um dia, ele ficou responsável por lavar a louça do jantar, todos os dias, como nós tínhamos outras obrigações diárias. E aquilo, já foi uma vitória! Rs

Questionava os nossos papéis, os nossos direitos. Por anos, ouvi das minhas tias e avó: ‘mas você vai ficar de bunda pra cima enquanto ele lava louça?’, perguntavam, indignadas. ‘Sim, ele fica de bunda pra cima enquanto eu lavo, por que eu não posso ficar também?’, rebatia. E sabe, eu não estou reclamando de ter aprendido todas estas coisas enquanto criança e adolescente. Foi fundamental pra eu poder morar sozinha aos 16 anos, em uma cidade completamente desconhecida pra mim e pra minha família.

A minha observação é perceber que, naqueles momentos, em que não achava justo ter mais deveres e cuidados que meu irmão, fui feminista. E isso, pautou e tem pautado a minha caminhada.

(por experiência própria, a gente só tem ganho com muita insistência, reclamação, argumentos e união!)

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Morro do Pai Inácio, na Chapada Diamantina-BA (2013)

Meu olhar Minha vida

Celebrar as pequenas coisas da vida

As cartilhas da vida dizem ‘vamos celebrar cada conquista, mesmo a pequena!’ e na vida real é tão difícil, não é? (pelo menos, pra mim, é.) Uma vez, numa avaliação, pude perceber que ‘amo escalar a montanha, posso passar sei lá quanto tempo subindo, mas quando chego, passo meia hora e quero descer’. Isso é um comportamento de completador de tarefas.

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Acho que estava mais acostumada a perder do que a ganhar. Não banalizo as vitórias, as conquistas. Só estava um pouco mais acostumada a perder. Partir pra outra. Recomeçar. Eu aprecio bastante o perder, acho que existe valor aí. Em que, perdendo, você desenvolve a persistência, pensa de uma maneira de se renovar (refrescando seus neurônios!), melhora em seus pontos fracos, se desenvolve. Aprendi bastante perdendo.

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O exibicionismo gratuito das redes sociais desenvolveu um comportamento entre nós. Percebemos que a vida passa pelo Facebook, Instagram e agora, o SnapChat. Você tá ali, conversando com uma pessoa, encostada no balcão, quando vê, tem uma câmera na sua cara pra isso ir ao ar agora. Conversa de balcão!

Todos os eventos, pratos, mesas lindas, flores de presente: tudo é de atração ‘do público’. E  confesso: questionei se isso seria parte de uma vida ‘pública’ ou ‘privada’ (~ viramos celebridades ~). Por que estaria fazendo a mesa bonitinha pra um jantar romântico com o marido ou se ‘pra ter pauta/foto bonita’ pras redes sociais (ou os blogs no formato atual, que trabalham como revistas segmentadas).

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Celebrar não pede foto e post, embora a nossa vida hoje passe pela internet. Viajou: fotos nas redes sociais! Foi num restaurante gostoso: fotos nas redes sociais! Encontrou alguém: fotos nas redes sociais! E quando a gente faz algo gostoso, que nos fez bem, mas não quer publicar isso nas redes sociais, será que deixa de ser uma comemoração? A celebração é validada com post no facebook?

OU será que o fato de PUBLICAR algo nas redes seja uma maneira de celebrar cada momento da vida?

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(((((momento de epifania)))))

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Acabei de descobrir que o mito ‘celebre as pequenas coisas da vida’ pode se chamar ‘publicação em rede social’ e eu, na vida real, estou achando um saco. Talvez seja minha tendência em perder.

caixinhas
Tudo isso para dizer que, depois de 4 anos e meio, consegui ter uma sacolinha personalizada da minha marca, a Bela Prata. Com ela pronta e linda parece fácil, mas há anos procuro um fornecedor que possa me atender, cobrindo as necessidades básicas de um pequeno negócio (preço, prazo, flexibilidade de tempo, o tamanho da sacolinha). Anunciei aos clientes nas redes sociais da loja e aproveitei, compartilhando a imagem, para celebrar esta conquista. Diga aí! rs
Pauta Nacional

Os vagabundos que acham cultura importante

Tenho dificuldades para explicar minha reação ao outdoor ‘Não Pense em crise, trabalhe’, espalhados por vários pontos do Brasil. No meu caminho do trabalho vejo um e a alguns dias tenho sido tomada por sentimentos em relação a isso. É como se aquele outdoor risse da minha cara, toda vez que passo, como se transformasse aquele objeto estático em um animado. Visualizo risadas de escárnio e ironia. ‘Agora que acabamos com a crise, que era ter o PT no governo, trabalhe, vagabundo!’

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Entre os vários golpes (aparentemente) inesperados foi a extinção do Ministério da Cultura, todos já sabem. Hoje, aliás, ‘temos o ministério de novo’, viva, viva, vamos esquecer que estamos passando, devolveram o que a gente pediu, estamos satisfeitos e vamos voltar pro sofá. Ahãm. Senta lá, Claudia. 

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Eu sou aquele tipo de pessoa que é indefinida, dependendo da roda que está. Para os bem nascidos, eu sou ‘a alternativa’. A que gosta de bandas que ninguém conhece, que não curte ‘balada sertaneja’, que tem tatuagem, não troca o carro, que é diferentona. Para os realmente alternativos eu sou a empresária capitalista, patroa, que usa carro, ainda come carne e toma anticoncepcional.

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‘Amigos’ que há anos não pegam um livro na mão (isso também inclui o Kindle) passaram a bradar sobre o Ministério da Cultura. Que ‘não era prioridade’, ‘que é cabidão de emprego pra vagabundo’, que ‘é pra gente viver na teta do governo’, que ‘os artistas não querem cultura para o povo, querem verbas para não trabalhar e fazerem filmes inúteis sobre a vida de pessoas mais inúteis ainda’ (sim, copiei e colei esta pérola de um facebook ‘de amigo’).

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Participei das primeiras feirinhas de rua aqui em Aracaju, promovido por pessoas envolvidas com arte e cultura. Fizeram sem um real no bolso seis eventos envolvendo economia criativa, música, arte, teatro, poesia e ocupação do espaço público, o principal motivador deste movimento. Através de produção de vídeos (a série Mulheres Inspiradoras, conheça clicando) conheci pessoas fantásticas que, em seus bairros e comunidades, fazem diferença acreditando no envolvimento com cultura, autoestima, desconstrução de paradigmas e preconceitos. Pessoas simples que vão além das redes sociais: são agentes transformadores de sua comunidade. Fomentam a produção local, permitindo que toda uma cadeia de profissionais (que envolve desde o vendedor de instrumento ao rodie que cuida do microfone) seja fortalecida localmente – diminuindo a migração e aumentando o dinheiro que fica na cidade, por exemplo.

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Estas pessoas que bradam contra o Ministério da Cultura, dizendo que ‘tem menos importância’ é a pessoa que nunca saiu da sua casa para ver uma produção local de teatro ou música autoral. Que não CONHECE o que está sendo produzido na cidade onde mora. Que nunca pisou os pés nos teatros menos badalados da cidade (porque realmente acredita que ‘ir ao teatro’ é ir ver stand up comedy – aviso: não, não é!). Que nunca prestigiou a orquestra do seu estado – nem quando as apresentações são de temas de filmes.

Para estes, este tipo de programa e envolvimento sempre foi coisa ‘de gente alternativa’, como eu. Nunca olhou de perto, com os próprios olhos, pra ver o que é que está sendo falado, produzido, discutido. Não se envolve diretamente em nenhum evento local, colocando a mão na massa, pra ver como são os processos e como se faz algo – não só se consome pronto. E que viajam para fora do Brasil para tirar selfie na porta do museu e não entrar…

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Para quem se envolve de alguma maneira com produção cultural, estamos a alguns anos trabalhando – e muito! – para criar público, apresentar projetos, ensinar a apreciar o novo, o diferente, o autoral. Assistir televisão além da novela, ouvir música além das duplas sertanejas pasteurizadas, colocar quadros na parede além de reproduções do Romero Brito.

Um conhecimento que é transformador, que faz você querer conhecer mais e mais coisas, caminhos que te levam a livros, exposições, biografias de outras pessoas fantásticas que há anos romperam com sua realidade e mudaram seu entorno e toda uma sociedade.

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Aos que afirmam que o ministério é inútil e não serve pra nada, só digo: você é o que mais precisa de cultura e ainda não percebeu.

Meu olhar Minha vida

sobre ciclos e processos

Já faz um tempo que passei a perceber a minha resposta diante da minha ansiedade. Durante anos sempre gostei de fazer trabalhos manuais, mas nunca percebia a relação deles com a ‘danada‘. Depois de alguém muito próximo começar um tratamento com acompanhamento médico para transtornos de ansiedade, uma luz acendeu: então é ansiedade o nome daquela angústia enorme que invadia meu peito, paralisava meus atos e me deixava em desespero, sem data nem horário marcado?

Cada um tem suas maneiras de lidar com questões que às vezes fogem do nosso controle. Uma dose de bebida assim que termina o trabalho. Um cigarrinho depois do jantar. Um doce escondido na gaveta. Corridas noturnas, andadas de bike ao por do sol. A gente vai descobrindo o que nos ajuda a aliviar nossa tensão do dia a dia e investe nestas atividades, algumas saudáveis, outras menos. Todas válidas.

Percebi que quando fico ansiosa quero ‘fazer algo com as mãos’. Troco as plantas de vasos (o que é ótimo para elas, que ganham terra adubada e mais ‘ventilada’), pinto quadrinhos ou vasinhos, escrevo nos meus cadernos, pinto livros de colorir. Minha ansiedade só me dá paz com atividade manual com resultado palpável, ‘um produto’. Escrever não ajuda – aliás, a minha ansiedade paralisa minha escrita.

Com clareza desta questão, fiquei surpresa ao perceber esta minha resposta a este mal contemporâneo que é a ansiedade. Em tempos de mensagens instantâneas, fotografias de tudo, notícias avassaladoras a todo momento, algo que nos traz ‘para o chão’ é sempre válido.Encarar de frente as nossas limitações, também.

 

cotidiano, Meu olhar Minha vida

Blogar, oras bolas!

Ah, eu fui blogueira. Um dia. Mas lá por 2002, 2003, era tudo diferente. Eu sou, aos 33 anos, uma das dinossáuricas da internet que vai ficar dizendo em todo passeio ‘Eu lembro que isso daqui era tudo mato!’. Brincava de mudar o template do blog no HTML. Ser blogueira em 2002. Hoje apanhei para colocar o banner na lateral do blog.

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A internet era um lugar de poucos espaços atraentes e quem aspirava em escrever alguma crônica, texto, conto, recorria aos blogs. Os blogueiros de 2002, que nada tem a ver com os blogueiros de hoje, queriam contar suas dores e poesias, seu olhar diferente sobre as coisas e sobre a vida. Era uma forma diferente de se expressar, de conhecer alguém. Garotos brincando de se comunicar.

Há alguns anos fui reconhecendo alguns ‘órfãos de blogs’ por aí. Percebi que não era a única! A ter saudade de conhecer alguém pelos textos e não pelos compartilhamentos. Ler o olhar poético daquela pessoa que você admira, lá de longe, quietinha, sem se manifestar nem com um like, coraçãozinho. Espiar e acompanhar a vida alheia. Se identificar.

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Diante de tempos sombrios e de tanta incompreensão nas redes sociais, talvez um pouco mais de lucidez fora delas. Espaços onde você reflete um pouco mais antes de escrever, espaços para argumentar, para contar as coisas que você vê por aí. Menos facebook, mais Central do Textão.

 

 

Inspiração

A gente fica mordido, não fica?

Faz dias e dias que tenho ouvido uma gravação do programa Cultura Livre (assista a esta belezura neste link aqui) , em que o Liniker e a banda Caramelow’s estiveram por lá. Deus benza a internet, que cristaliza momentos mágicos da TV. heheh Antigamente a gente tinha que esperar sair um especial, que nunca seria lançado em vídeo. Um artista de 6 meses de lançamento estourando por todo Brasil por poder se multiplicar pelo YouTube. Benza deus!

O impacto inicial, aqui:

 

O bônus do Cultura Livre

Dá pra ouvir faixa a faixa também e recomendo tudo desta gravação. ❤

Sem categoria

sobre a maternidade

fotokikoferrite
foto de Kiko Ferrite, feita para a revista TPM

O dia das mães é uma daquelas datas que provoca sentimentos, evoca pensamentos, traz dúvidas e incertezas. É aquela data em que a internet é invadida de amor e de homenagens, vídeos, fotos, declarações. E eu, me perco nas ideias e nas dúvidas se encaro ou não este desafio para o resto da vida.

Meu marido e meus amigos próximos já estão consideravelmente fartos do assunto, do tanto que acabo trazendo à tona, em quase todas as conversas que tenho. Em geral, todo mundo se acha no direito de lhe dizer que ‘sim, minha filha, tenha um filho‘, mesmo aquelas mães que passaram por grandes desgostos e sofrimentos. Mas eu… eu me encho de dúvidas. Se até esta mãe, sofrida e sozinha, acha que eu devo ter um rebento meu, por que será que a certeza não bate à porta?

Cresci acreditando que a maternidade faria parte da minha vida, porque era ‘o natural‘ de se pensar. Não tinha nenhum bom exemplo de alguém próximo, sem filhos. As mulheres que conheci na infância e adolescência e que não tinham filhos eram um tanto ressentidas com o universo por conta da não-maternidade. Eu é que não queria ser daquele jeito, então, óbvio, teria filhos – este foi o pensamento automático. E quando foi chegando a hora, chegaram também as dúvidas, os questionamentos e todo o universo maternal para ser visto e revisto. De uma hora pra outra eu precisava decidir se queria ou não ser mãe.

As pessoas minimizam muito esta nossa fase, mas somente nós, mulheres, sabemos o que é ver o tempo escorrer por entre nossas pernas. Todo mês, nos lembra que, embora os 40 sejam os novos 30, nossos óvulos não tem smarthphones nem usam Renew. Eles envelhecem, morrem aos montes e nos obrigam a decidir, bem neste momento em que a vida parece estar entrando nos eixos.

Inevitavelmente faço contas e percebo que, aos 50 anos é possível que eu tenha um adolescente dentro de casa me odiando e questionando o mundo. Converso com amigas próximas e muito queridas e todas, toooodas, são muito sinceras quanto à maternidade. ‘Ó, é bem bom, mas não é tudo isso aí que o povo fala não‘ <<<< fica a frase mais ‘tranquila‘ de se publicar na internet. Olho para o universo feminino da maternidade e tenho vontade de sair correndo! Obrigações, traumas, deveres, culpa, medo, solidão. O ‘não ser‘, que uma amiga e mãe de 4, me explicou, dia desses. “Ser mãe é não ser mais nada, é viver para criar bem os filhos que a gente pôs num mundo – a nossa vida fica pra depois”.

Então, o dia das mães (e todo momento que o assunto vem à tona) é aquela reunião de família que quando a gente é solteiro vem a tia chata e pergunta: “e os namoradinhos?”. É. Na maioria das vezes dou uma resposta vaga e tento mudar de assunto – afinal, não é sempre que a gente pode ficar problematizando a vida em público.