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Perdi a mão

(publicado originalmente no Medium)

Perdi a mão em escrever textos para serem publicados em blogs. Faz três anos que fechei meu antigo ‘Denise Escreve’, depois de um comentário besta de um antigo leitor. Sim, por tão pouco, parei de publicar na internet – continuo escrevendo, mas sem ninguém ver o resultado disso.

Não sou a ‘nova promessa’ da literatura brasileira nem tão pouco a blogueira que vende espaços com ‘looks do dia’ ou posts mostrando produtos que recebeu pelo correio. Sou alguém que gosta de escrever – às vezes opiniões, às vezes crônicas, críticas, textos que vão se enrolando na minha cabeça, transformando palavras soltas em frases que me perturbam por um tempo. Um tanto de mim, das minhas angústias, expectativas e medos – coisas que na era da selfie e da ‘duck face’, passam longe de ser exposição. Em 2002, praticamente no século retrasado quando se trata de internet, escrever sobre o que a gente pensava/sentia era considerada exposição excessiva. Ah, tolinhos… mal saberiam o que estava por vir.

Há 11 anos escrevia meu TCC, questionando se ‘blogs faziam jornalismo’. Fiz um estudo de caso com o “Blog do Noblat”, que na época foi o primeiro jornalista de redação tradicional a noticiar a política brasileira através dos blogs. Se referir a blogs em 2005 era sempre ter de explicar que ‘blogs eram como diários virtuais’. Hoje, os blogs se tornaram revistas segmentadas e específicas, com seções, publieditoriais, publicidade e público fiel – muitas vezes, superiores às revistas impressas especializadas. O trabalho jornalístico é inexistente em boa parte das publicações que vemos por aí e o que passamos a perceber foram veículos tradicionais, como por exemplo a Folha de S. Paulo, criando uma divisão dentro do próprio negócio só para produzir publieditoriais com ‘uma pegada jornalística’.

Neste novo universo, onde foi parar aquela pessoa que simplesmente ‘escrevia porque gostava de escrever’? ‘Blogando’ de forma despretenciosa e até inocente, se expressando, dizendo ao mundo ‘pra que veio’. O que percebi ao longo dos anos mantendo blogs é que ele precisava ter uma ‘função’ além de ser uma válvula de escape dos ‘dedos nersosos’. “Você gosta de decoração/plantas/passeios? Escreva um blog sobre isso!”. Você consegue setorizar a sua vida e falar só daquilo que gosta? Eu não. Quero questionar o mundo, quer dizer que não concordo com argumentos, quero ter dias de melancolia, dias de provocações da inteligência alheia. O facebook se tornou um pouco ‘este espaço’, mas… não é a mesma coisa. Talvez aquele espaço nunca mais exista.

Terminando de escrever este texto, tenho o mesmo sentimento, toda vez que escrevo um post: diante do que a internet é hoje, ele é irrelevante. Pra que estar escrevendo sobre ‘um passado distante’, algo que vivi há anos e que não existe mais? Aos 33 anos, me sinto dinossáurica pensando e sentindo tudo isso. Irrelevante. Ainda assim, não consigo deixar de escrever sobre. Diferente dos outros dias, hoje resolvi publicar.

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cotidiano

sobre papéis e o tempo

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Inspirada no livro “A mágica da arrumação”, da Marie Kondo, passei parte dos dias anteriores ao carnaval (e alguns dias do feriadão também) fazendo uma arrumação geral em gavetas, pastas, baús, estantes. No livro a autora ensina sua técnica de descarte e organização, que basicamente é: só mantenha objetos (roupas, sapatos, fotos, livros, cds, etc) que lhe tragam felicidade e se organize para sempre guardar seus itens no mesmo local (evitando espalhar pela casa mais bagunça depois da arrumação).

Parte de mim já vivia este método. No final da adolescência, passamos a mudar várias vezes de casa/apartamento, me obrigando a fazer escolhas conscientes sobre os itens que carregaria comigo (e eu adoro carregar coisas!). Passei a ter guarda-roupas pequenos e quando criança, minha mãe tinha o hábito de ‘se ganhou roupa nova, separa uma velha pra doar’. Como sempre gostei do tema ‘organização’, sempre li a respeito e fui absorvendo muitos conceitos ao longo do tempo. Se uma roupa/sapato/bolsa não é usado há mais de 6-12 meses, tá na hora de passar pra frente. Se a pilha de revistas ficou intocada por um ano, pra que guardar? E por aí vai.

Depois das gavetas e estantes, chegou a hora de enfrentar os papéis. Ah, quanto papel! Cartas, bilhetes, convites de casamento, cartões de aniversário, natal, cartinhas de amigos que eu não sabia mais quem era. Ano passado adquiri um dos melhores itens de 2015, que trabalhou bastante nestes últimos dias: uma fragmentadora de papel. Foram 3 sacos de 50L de papel picado, coisas que nunca mais havia lido, tocado, visto. Comunicação dos séculos passados, troca de cartas dignas de museu, para as novas gerações.

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papéis picados pela fragmentadora ❤

Entre tantos papéis, encontrei toda a minha documentação financeira relacionada à minha primeira graduação, que foi jornalismo (neste ano, passei em Artes Visuais na Federal de Sergipe). Papéis de aditamentos, boletos, promissórias, contratos do Fies. Relembrei um tanto de todo sacrifício que passei na época: depois de ter passado no vestibular e cursado alguns meses, uma crise financeira familiar foi um impasse para continuar o curso na universidade particular. Eu já estava há quase 3 anos formada do ensino médio e havia uma frustração enorme em não cursar uma universidade pública. O Fies foi a única possibilidade de continuar estudando.

Ao separar todos os papéis para serem picotados, lembrei das inúmeras vezes que precisei ir à Caixa pedir a segunda via dos meus boletos do Fies. Mesmo formada e trabalhando na área, não conseguia pagar mensalmente a dívida, acumulando alguns meses em atraso. Na época, só era possível conseguir o financiamento se você colocasse um fiador no contrato, levando meu avô materno à ficar com o nome em listas de restrição de crédito, já que algumas vezes, acumulei mais de três meses em débito. Era horrível. Eu não tinha como quitar a dívida de imediato, meus parentes me cobravam porque a Caixa enviava uma carta de aviso ao meu avô, era aquela maravilha. Foram anos de chateação, vergonha e frustração.

Ao voltar a todos estes papéis, percebi o quanto o tempo é senhor do nosso destino, de fato. Tudo passou, a dívida foi finalmente quitada (em 2013, 11 anos depois de eu ter entrado na universidade), os papéis podem ser picados. Que venham as novas experiências!

cotidiano

os bolos nostálgicos

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No meu aniversário, a história é quase sempre a mesma: gosto de pedir bolos com sabores considerados exóticos, como ameixa ou damasco, às vezes com algum toque de limão. É um praticamente um mimo que proporciono a mim mesma, já que em aniversários, o chocolate impera. Bolo de chocolate, com recheio de brigadeiro e cobertura de ganache. Geeeente, cadê a diversidade de sabores?

Na minha infância uma boleira super empreendedora me marcou para sempre: seus bolos, sempre de massa branca de baunilha, eram recheados com um creme de ameixas, pêssegos ou abacaxis (estes recheios eram moda nos anos 1980!). A decoração era um glacê colorido e açucarado, com desenhos temáticos conforme o pedido da cliente. Minha mães e minhas tias adoravam uma festinha e em todos os aniversários da família, dá-lhe pedir bolo da Socorro! Uma delícia!

Mudamos para o Paraná e volta e meia tinha bolo ‘importado’ nos nossos aniversários. Como? Minha mãe passou a encomendar ‘bolo gelado’, uma versão já cortada de colo de coco, bem molhadinho, enrolada em um papel alumínio – e era ‘apresentada’ escondida em ‘bolos falsos’ de isopor, camuflada com os enfeites da mesa. O bolo viajava quase 500km dentro de uma caixa térmica (possivelmente de isopor), só pra fazer a festa da criançada!

Percebi, escrevendo este texto, que tenho uma paixão nostálgica por bolos que povoaram a minha infância. Recheios de creme com pêssegos cortados em cubinhos, morangos suculentos com chantilly, hummmmmmmm! As surpresas e descobertas que os bolos de frutas proporcionavam… Pasta americana, você pode ser linda, mas nunca trará suspiros a cada garfada!

‘Posso levar um pedaço pra minha mãe?’ era a frase sinal para ter mais bolo em casa depois da festinha. A vantagem de fazer aniversário e ser adulta é que todo bolo que sobrou é seu, a hora que quiser, do tamanho que desejar a fatia.